Prefácio
“Uivam os Lobos” assemelha-se a um palco de memórias. Nele se contam, e encontram, de um modo imensamente vívido, uma série de imagens remanescentes de um outro tempo, aqui presente sob a forma de um eco, retumbando por entre os versos que o firmam.
“Sou libertina de um costume antigo
tenho o corpo feito de metais
boca de sangue e ferro
braços presos nos matagais”
(Do poema “Tenho medo”)
“Soando nas têmporas
as batidas cardíacas
a reboque de um eco forte
no alto da cabeça”
(Do poema “Marés Negras”)
Nos poemas de Dakini, os quatro elementos confluem de um modo contínuo e extremamente natural estando estritamente ligados à vida de quem vive no (e do) campo, debatendo-se com os efeitos nefastos das intempéries e jubilando com os tempos propícios ao afloramento. Desta forma, somos convidados a tomar parte de um mundo recordado e, consequentemente, também recriado, onde se ouvem as campainhas “a chocalhar nos montes” e o “caminhar das águas”, ao mesmo tempo que o fogo se ateia para que nele se concentrem “todas as fogueiras” e o “vento uiva”, apesar do seu eco adormecer sozinho “a contraluz”.
Moção, a terra-origem de Dakini, desempenha, neste livro, um papel fulcral, servindo, não só de cenário e inspiração, como também de lugar de aprendizagem - já que foi aqui que a autora deu os seus primeiros passos e absorveu as suas primeiras estórias, iniciando a construção de todo um imaginário que a acompanhará ao longo da sua vida, despertando-lhe tanto temor quanto fascínio.
“A rua onde moro
é escura no pranto
ladainha surda
como um lobo de matilha”
(Do poema “Em transe”)
“Estão as portas fechadas
e eu tenho frio
muito frio dos lugares inóspitos
e medo
muito medo dos açaimes brancos
(…)
Tenho medo
muito medo das colinas
onde me esperam
outras histórias”
(Do poema “Tenho medo”)
“Tinha no lugar
dos olhos
dois buraco
s negros
tão fundos
que se viu extinta
a ideia
de se aventurar
por novos pontos
no espaço”
(Do poema “Profeticamente”)
Por outro lado, Moção é descrito como um lugar de trabalho árduo
“Terminaram os preparativos
quando se gastaram todas
as braçadas de lenha
que tinham carregado
às costas”
(Do poema “Cultos”)
onde o Homem persiste e insiste em controlar a própria Natureza, nomeadamente desviando o curso original de um rio por forma a aumentar as suas colheitas e, deste modo, delas poder (sobre)viver.
“Não sei
porque te desenharam
um rosto
te deram formas
(…)
contornando as margens
das velhas correntes
que estagnaram no lodo
que as fabricou”
(Do poema “Não sei”)
“Irrigaram-se os campos
numa mostragem breve
de como se deve beber
sem ter sede
de como se devem
encaminhar as águas
sem saber os cursos dos rios”
(Do poema “Tempo de espera”)
Contudo, esta “Terra infértil” nem sempre se deixa “domar pelos braços/de quem tem fome”, por isso “as lágrimas irrigam os campos enquanto da serra não chegam os ventos nem as últimas levadas”.
Nesta terra de becos, carpinteiros, “gigantes/adormecidos/no caminho/das giestas”, peneiras, raposas, “olhares mortiços”, moinhos, “línguas de fogo”, palmos de chão galgados, orquídeas, foices e “enchentes na voz”, a religião enraíza-se. Daí que os rios onde as pessoas se miram sejam de “água benta”, as virgens sejam excomungadas “pelo canto das aves” e a terra, “pisada e recalcada”, não esteja abençoada quando se encontra “fria/nua e crua”.
“Já me vi em dias de sol
sem sol
a sacudir
o sino da capela”
(Do poema “Já me vi em dias de sol sem sol”)
Todavia, e apesar de “em redor das estrelas” o movimento ser circular e, deste modo, regrado e cíclico como a própria Natureza se espelha sobre os campos,
“Dos ramos caídos
desponta a folhagem nova”
(Do poema “Mundo dos novos loucos”)
“havia raízes tenras
a nascer
nas enseadas”
(Do poema “Já me vi em dias de sol sem sol”)
a identidade, por vezes, esmorece; e os limites do corpo tornam-se uma miragem ou uma “mera desfocagem” deambulando por “atalhos remendados/e restos de eras disseminadas”. Nesta circunstância, o encontro “dum lugar incerto/mas dum tempo certo”, onde o reencontro exista, torna-se urgente, já que a tristeza avassala todo o mundo disseminando caos e solidão.
“Mundo submerso
por duas lágrimas
a molharem-me os pés
ainda nus sobre a terra
enquanto a chama corrente
aguarda pela variações”
(Do poema “Tempo de espera”)
Fizeram-se verdes
os meus olhos
e negras todas as bocas
ao caírem nas luras
de um corpo proscrito
moldado em aço
(Do poema “Corpos de Aço”)
Soletrei o teu nome
e só o som da minha voz
foi eco
(Do Poema “Eco Feroz”)
Não obstante, Moção também é palco de “dias de sol sem sol”, conduzindo-nos aos tempos onde existiam “caminhos longos/a fazerem-se breves” nos passos “ainda frescos”. Nesses dias, há corpos trôpegos “a escutar/o canto dos pássaros” e cancelas semiabertas “aos voos nocturnos”.
“Tão forte a corrente
que se fez pele
na minha pele
como um vento”
(Do poema “Caiu-me mel”)
A terra que cria, porém, é a mesma onde o corpo se decompõe. Daí que existam “Foices a calcular a métrica” que farão os corpos “alcançar/os caules/as folhas/e/as raízes secas/junto ao chão”, sendo necessário que o conhecimento das terras passe de boca em boca, e de geração em geração, para que os próprios cultivos também se propaguem e, desta forma, se perpetue tanto o ciclo da vida como o seu sustento.
“Diz-me
como ouvir o prenúncio
da última idade
como se apanham as cerejas
como se comem as amoras
como se lavra a terra
se regam os campos
e
se mondam as searas”
(Do poema “Moinhos de vento”)
É preciso entender “os sinais do tempo” e as vozes que vaticinam. Porque, em Moção, o Homem confunde-se com a própria terra que o sustém
“Se escutares com atenção
ouvirás da minha boca
o sussurro do vento”
(Do poema “Alvorada”)
e nenhuma defesa será suficiente contra as raízes que se estendem da terra até ao Homem, fixando-se nas redes inefáveis e inevitáveis da sua memória.
Assim nos prova este livro.
E assim o comprovamos nós, meros visitantes desta terra tornada prodígio pela acção da emoção e da memória.
Sofia Gabro
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terça-feira, 21 de outubro de 2014
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Apresentação de "Uivam os Lobos" em Alenquer
"Uivam os Lobos", vai estar no Museu João Mário em Alenquer. A Apresentação estará a cargo de Celeste Almeida, (autora dos programas "As Nossas Raízes, o Passado e o Presente, e "À Descoberta de Portugal" na Rádio Limite de Castro Daire.
O grupo Almas no Teatro fará uma representação de alguns poemas do livro
Ser Poeta é...
Queria falar-vos sobre a poesia
de agora. A que move muitos poetas. A poesia que desfila diariamente pelas
redes sociais e sites na internet.
Perguntaram-me num programa de
radio se com a poesia se ganhava dinheiro. Penso que se ganham coisas mais
importantes do que o dinheiro. Mas, isso também depende do que é importante para cada um como garantia para
ser um bom Poeta
Florbela Espanca, escreveu: “ser
poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens…”
Pois é! Ser poeta nos dias de
hoje, para muitos poetas, não é o mesmo que para Florbela Espanca. Para muitos,
ser poeta é ser maior entre os homens. É garantir um estatuto, um nome,
engordar o ego com a satisfação de muitos desejos de poder. Migram os seus
versos por caminhos terrenos, em busca de algo que os ajude a viver neste mundo
podre e doente.
Dizem por aí que a poesia é a
expressão da linguagem da alma. Dizem também, que a poesia expressa os
sentimentos mais íntimos e profundos. Dizem que acode também os pensamentos
mais incautos.
Dizem tanta coisa da poesia de
antes, dos que foram Poetas e o continuam a Ser entre nós - espíritos errantes
pelo mundo, a quererem prevalecer e revelar aos poetas ainda vivos que a morte
não existe para qualquer Poeta, assim como não existe para a vida.
Mas que diriam os poetas de
antes, se pudessem manifestar-se através da linguagem eterna, neste novo mundo onde
a poesia se alastra como rastilho de pólvora, por todos os caminhos virtuais,
onde nasce a cada dia um poeta?
Que diriam eles, Poetas Maiores
que se eternizam num além tão próximo, se visitassem o aquém tão distante para muitos
poetas que para o serem se esquecem de ser Pessoas? Desfilam num tapete forrado
de palavras incertas num corrupio de vaidades, onde a demagogia cria raízes
profundas. Trazem-nos imagens desfocadas no meio dos escombros, envoltos em
palavras inusitadas e despropositadas, a utilizar a linguagem da alma. A poesia
sofre por todos os poetas de antes e até pelos poetas de agora, que à força de
quererem ser poetas, esquecem onde colocar o verso no Verbo, forçando-o a
visitar mundos desequilibrados.
Neste mundo virtual, a poesia
anda de mãos dadas com um maior número de gostos, para que a classificação seja
justa com o estatuto merecido. Não esquecer também os títulos. Isso é
importante, para se ajuizar sobre um bom poeta;
Senhora Doutora, senhor
Professor, senhora Professora, Senhor Engenheiro,….e mais isto aquilo, para
revelar que ali não mora só a poesia, não. Ali reside um bom Poeta;
“bravo Senhor Doutor,
Doutora, Professora ou Professor pelo grandioso poema que aqui nos deixa.”
“o seu nome, Senhor Doutor, devia figurar numa rua
da nossa cidade, como um dos maiores poetas da actualidade.”
E por aí adiante.
A alma da poesia encolhe-se, contorce-se de dor,
fragmenta-se sem dó nem piedade, pelas ruas escuras de uma cidade, onde os
mendigos criam em cada naco de pão, um poema, um verso, o desejo de serem só
almas errantes pelos caminhos, onde o verso no Verbo os acolhe.
Para os poetas de agora não basta
ser poeta. Corroídos por um desejo doentio de serem mais qualquer coisa…coisa
que se veja, que os classifique numa ordem imposta pelo sentido ascendente até
atingirem o topo da pirâmide, onde estão os poetas maiores.
Mas, invertendo a ordem
ascendente segue-se a descendente, a que nos fez vir aqui para nos revelarmos
Pessoas na vida e poetas num além tão perto do Arquitecto Maior. O maior Poeta de todos os tempos. A fonte é e sempre será a mesma. Não se iludam
Poetas!
Dakini
terça-feira, 7 de outubro de 2014
Linguagem do amor
No tumulto dos olhos
revoltam-se
os olhares torturados
pela ausência
de cor
No alvoroço da noite
abrem-se os lábios
à nova torrente
escancarando
a dor
Esbeltas são
as lágrimas
que se afogam
na linguagem
do amor
Dakini
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Voz
Ínfimas as luzes
baças
da cidade
nos seus olhos
Ternos afagos
soltos
pela manhã
os corpos
adormecidos
no cais de pedra
As luzes
Incendiaram
à noite
a loucura
nos abrigos
Ela, a cidade
calou uma
e outra vez
o medo
do lado
de dentro
dos muros
Fundida
a última estrela
colada nos vitrais
do altar-mor
dos desejos
Despojados
do sonho
seguram
os rostos
suados
amordaçados
ultrajados
Desfilam à vez
os corpos
as almas
e as correntes
do Tejo
A cidade
calada
não ouve
o grito
dos silêncios
unidos numa só
voz
terça-feira, 9 de setembro de 2014
Manifesto
Escultura: Ricardo Kersting
Sempre em puro manifesto
contra tudo e todos
mas sem nada
que a possa dissuadir
de prevaricar as ondulações
frequentes do seu pensamento
Esmagada pelo mudo
que a viu crescer
vai de porta em porta
vendendo ideias
e escrevinhando versos
que a fazem acontecer
num único movimento
dos olhos
Mas pensando bem
os seus versos falam de quê?
- carece ser vista
pelos olhares do mundo
Dakini: (Série "Mulheres de Areia")2010
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Manuscrito
Acordou sentado num conto
ainda por escrever. Deitou-se de novo
sem saber como iria ler
esse manuscrito
proscrito
na face contrária dos olhos
Lembrou de um sonho inanimado
no centro da terra. Esburacou os olhos
agora centrados
nesse lugar
onde
outrem escreveu
o que ainda faltava escrever
*
Dakini (Série de poemas "Infinito dos Olhos"/14)
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